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'Depois da Venezuela, Trump vai tentar influenciar eleições no Brasil, mas pode prejudicar a direita', diz especialista americano

Erick Langer, professor da Universidade de Georgetown, afirma que Trump vai continuar tentando interferir na América Latina — onde o Brasil é o 'grande contrapeso' contra o presidente americano
  • Categoria: Geral
  • Publicação: 06/01/2026 07:25

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai continuar "se metendo" nos países da América Latina depois da operação militar que resultou na prisão de Nicolás Maduro, no último sábado (3/1).

Mas as ações de Trump não serão iguais para todos porque cada país tem um peso global e uma conjuntura interna diferentes.

A avaliação é de Erick Langer, professor de história na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.

Em entrevista à BBC News Brasil, o professor diz que "Trump quer criar uma colônia econômica na Venezuela", com foco na extração de petróleo por empresas dos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente do próprio Estados Unidos, através do petróleo venezuelano.

Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela.

Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano", diz Langer, que foi diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Georgetown e é casado com uma venezuelana.

O especialista avalia que a operação americana que deteve Maduro contou com o apoio de integrantes da cúpula do chavismo, como Delcy Rodríguez, vice-presidente do país nomeada presidente interina da Venezuela.

"Acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello [um dos quadros fortes do chavismo] fizeram um acordo e traíram Maduro...para ficar com o poder", afirmou à BBC News Brasil.

Em contrapartida, Rodríguez teria sido apoiada por Washington em detrimento de María Corina Machado, líder da oposição venezuelana.

"[Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora", avalia o professor.

Langer também acredita que Trump passará a pressionar o México para que não ajude Cuba, porque seu objetivo é "estrangular ainda mais" a economia cubana.

Segundo o especialista, o presidente dos Estados Unidos quer dominar todo "o hemisfério americano" e buscará influenciar as eleições presidenciais brasileiras neste ano.

"Mas vai acabar prejudicando a direita porque o nacionalismo falará mais forte", pontua.

"O Brasil é o grande contrapeso" contra as investidas de Trump, acrescenta.

A seguir, os principais pontos da entrevista.BBC News Brasil - Qual é a sua opinião sobre a retirada de Maduro da Venezuela e sobre as declarações de Trump de que vai governar ("run") o país e abrir as portas para as petrolíferas dos Estados Unidos?

Erick Langer - Foi bom que tiraram o ditador.

Mas, em primeiro lugar, não há um plano para o retorno da democracia.

E isso combina com Trump, porque Trump não está a favor da democracia nem nos Estados Unidos.

Acho que o que ele quer fazer é criar uma colônia econômica na Venezuela.

Porque o que ele disse, na verdade, é que Delcy Rodríguez "tem que me obedecer ou vou invadir e fazer o que for.."

[Frase do entrevistado, como se estivesse falando no lugar de Trump.

Em entrevista à revista americana The Atlantic, publicada no domingo (4/1), Trump ameaçou tomar medidas contra Rodriguez, caso ela não seguisse os planos de Washington.

"Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse o republicano à revista].

Isso é coisa de mafiosos.

Acho falso o Trump dizer que roubaram o petróleo dos Estados Unidos.

Ou argumentar que a Venezuela não pagou...

Mas o petróleo continua sendo da Venezuela.

O que existe é um contrato que pode não ter sido cumprido.

[A Venezuela realizou a nacionalização do petróleo em 1976, criando a estatal PDVSA.

Durante o governo de Hugo Chávez, a medida foi ampliada com a promulgação de uma lei, em maio de 2007, que determinou o controle nacional na produção da zona do Orinoco, onde existe uma das maiores concentrações de petróleo do planeta.

A maioria das empresas estrangeiras que exploravam petróleo ali teria aceitado fazer um acordo com o governo Chávez, ficando como sócias minoritárias do Estado venezuelano.

Mas as empresas americanas ExxonMobil e ConocoPhilips decidiram deixar o país sul-americano e cobraram compensações financeiras pelas consequências da nacionalização.

Mas isso é muito diferente. Evidentemente, Trump não sabe muito de história, porque não sabemos se ele se refere à nacionalização dos anos 1970 ou se faz referência aos contratos posteriores durante o chavismo, quando foi feito um contrato e sabemos que só foi paga uma parte.

Quer dizer que a Venezuela deve ainda certo dinheiro a estas companhias.

Então, é bom que Maduro tenha saído, mas o problema é que o chavismo continua.

Entendo que Trump não queira colocar María Corina no poder porque ela tem o apoio dos venezuelanos.

Ela, então, tem muito mais possibilidade de ação porque tem o apoio do povo venezuelano.

Delcy Rodríguez não tem esse respaldo.

E ela depende da máfia chavista...

BBC News Brasil - Ou dos Estados Unidos...

Erick Langer - Exato.

Vai depender dos Estados Unidos, mas é o povo, realmente, o dono do que está debaixo da terra [petróleo], não os Estados Unidos.

Ou seja, [Trump] não quer a María Corina porque ela não é tão manipulável como Delcy Rodríguez apesar de, claramente, María Corina também querer abrir o mercado para empresas de petróleo de fora e etc...

BBC News Brasil - O senhor falou em "colônia".

Por quê?

Erick Langer - Porque os Estados Unidos querem transformar a Venezuela em um país dependente dos Estados Unidos, através do petróleo venezuelano.

Tudo indica que, para Trump, não importa o regime que esteja lá na Venezuela.

Ou seja, a ditadura chavista pode continuar, mudando apenas de nome, e com o mesmo sofrimento do povo venezuelano.

É o que podemos ler de tudo o que Trump disse até agora.

Mas Trump não se expressa muito bem, o que deixa mais difícil entender o que vai acontecer a partir de agora.

Mas acho que o acordo é assim: se vocês não nos derem o que queremos, que é o petróleo, voltaremos a atacar novamente.

Todo o demais fica igual, porque ele disse que não haverá presença norte-americana [no país caribenho].

Que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela, mas sem seu pessoal na Venezuela.

Algo difícil de se fazer.

Suponho que ele vá fazer isso através dos próprios chavistas [que estão no governo].

Ou seja, os chavistas têm um campo amplo para fazer o que estão fazendo desde que mandem petróleo para os Estados Unidos.

Hoje mesmo [domingo, 04/01, à noite], depois do sequestro de Maduro, a situação politica não mudou.

O chavismo continua no poder.

O Exército [venezuelano] parece continuar na mesma linha e com seus arranjos de corrupção.

Com o que existe há tempos nas Forças Armadas de Venezuela.

Ou seja, as únicas mudanças que ocorreram foram: Maduro não está mais na Venezuela, agora está nos Estados Unidos.

Os venezuelanos que moram na Venezuela estão confusos, não sabem o que fazer...

Eu acho que o que María Corina deveria fazer é mobilizar as pessoas e assumir o poder, com a parte do Exército que não quer continuar com isso....BBC News Brasil - Com Edmundo González ou sem Edmundo González [candidato da oposição, apoiado por María Corina, que disputou as eleições presidenciais contra Maduro em 2024]?

Erick Langer - Obviamente, não sou conselheiro de María Corina e não sei o que ela vai fazer.

Mas o que eu faria, no lugar dela, seria chamar manifestações e assumir a Presidência...

Porque com María Corina na presidência, Trump não voltaria a invadir a Venezuela.

Mas aos Estados Unidos não interessa, neste momento, ter um governo legítimo na Venezuela.

O objetivo é pegar o petróleo e ter um país supostamente amigo, pelo menos na cúpula, e o restante não interessa....

No meu entender, e aqui estou especulando, os Estados Unidos não parecem querer uma democracia.

Uma democracia significa que haverá voto também sobre o que acontecerá com o petróleo.Erick Langer - Claro que sim.

Os Estados Unidos são agora o inimigo, o que pode mudar situações...

Mas existe uma grande diferença.

À exceção de Nicarágua e de Cuba, não há nenhum governo que não tenha o respaldo popular.

Quer dizer que todos os demais foram eleitos democraticamente e tirá-los seria muito mais difícil.

Por exemplo, Trump citou Petro [Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a quem Trump já atacou em diversas ocasiões], especificamente, e até usando uma expressão vulgar.

Se ele quiser tirar Petro, até pode ser, mas a Colômbia viraria um caos.

A Colômbia tem um histórico, muita experiência de guerrilha...

Seria mais difícil uma ação militar dos Estados Unidos.

Na Venezuela, é outra situação.

BBC News Brasil - O senhor acha que Cuba passou a ficar ainda mais na mira dos Estados Unidos?

Erick Langer - Isso é o que Marco Rubio [secretário de Estado dos EUA, equivalente a um ministro das Relações Exteriores] adoraria.

Marco Rubio é...

BBC News Brasil- Ele é de família cubana...

Erick Langer- De cubanos que chegaram nos Estados Unidos antes que Fidel Castro tomasse o poder.

Rubio se sente muito identificado [com suas raízes cubanas].

Sim, acho que é uma possibilidade, mas tenho certeza que a resistência militar cubana seria mil vezes maior que na Venezuela.

Na verdade, na Venezuela, acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello [um dos quadros fortes do chavismo] fizeram um acordo e traíram Maduro.

BBC News Brasil - Pela recompensa que os Estados Unidos ofereceram de US$ 50 milhões por informações sobre o paradeiro de Maduro?

Erick Langer - Não acho que foi pela recompensa. Mas para ficar com o poder.

Eles já têm dinheiro suficiente.

E fica claro que neste acordo [para a "entrega" de Maduro] que o combinado era que María Corina não assumisse o poder.

Acho que este foi um dos motivos para que María Corina e Edmundo González não assumissem a Presidência, como deveria ter sido.

BBC News Brasil - Cuba recebe hoje ajuda da Venezuela, do México e da China, que tem investimentos no país, por exemplo, na área de energia limpa.

Na sua visão, o que poderia estar nos planos dos Estados Unidos [para Cuba]?

Uma ação como a que foi feita na Venezuela para a retirada de Maduro?

Erick Langer - Acho que não.

Mas sim um estrangulamento econômico ainda maior por parte dos Estados Unidos.

O que de fato vai acontecer é uma pressão ainda maior contra o México para que não substitua a Venezuela [na ajuda dada a Cuba] porque, nos últimos tempos, o México tem enviado petróleo para Cuba porque a Venezuela não pode, porque não tem produção suficiente.

Ou seja, agora [os Estados Unidos] aumentarão a pressão contra Claudia Sheinbaum [presidente do México] para que ela não mande mais petróleo para Cuba, para que a crise cubana seja ainda pior, arrochando ainda mais o regime comunista cubano.

BBC News Brasil- O senhor concorda que Trump está buscando ter maior influência e poder no hemisfério americano desde que retornou em janeiro à Casa Branca?

Porque foi a partir daquele momento que ele passou a olhar mais para o continente e especialmente para a América do Sul.

Erick Langer - Acho que a visão de Trump é em termos de esfera de poder, como tinha Hitler, por exemplo.

[A ideia de que] "essa parte de terra é minha".

Já a Rússia pode fazer o que quiser [na disputa] pela Ucrânia, que os chineses tenham a Ásia e não tem problema, enquanto nós [dos EUA] ficamos com todo o hemisfério americano.BBC News Brasil- Qual o papel do Brasil nesta conjuntura?

O presidente Lula condenou a ação dos Estados Unidos na Venezuela e vinha mantendo diálogo com Trump, nos últimos tempos, depois do tarifaço imposto aos produtos brasileiros.

O Brasil é o maior país da América Latina, mas não conseguiu desencorajar a ação dos Estados Unidos na Venezuela. 

Qual é sua visão?

Erick Langer - O Brasil é o grande contrapeso contra Trump.

Claro que ele lamenta que Bolsonaro tenha sido preso.

Mas o Brasil tem um papel muito importante.

Desde Obama, com Lula, principalmente, o Brasil passou a responder pela América do Sul.

Mas isso agora mudou porque Trump não vai permitir que isto ocorra, como fizeram Obama e Biden [Barack Obama e Joe Biden, ex-presidentes democratas dos EUA].

BBC News Brasil– Há muita preocupação regional.

Qual é a sua expectativa em relação ao que pode acontecer na Venezuela e nos demais países da América do Sul?

Erick Langer - É sempre difícil prever o futuro.

Mas o fato é que Trump mudou o cenário que existia desde a Guerra Fria.

Isso significa se meter cada vez mais e mais na América Latina, no Oriente Médio, voltando-se agora para a China...

Acho que isso vai prejudicar os próprios americanos, se continuar assim.

E não convém, de nenhuma maneira, para a América Latina, porque com o objetivo de explorar os recursos econômicos...

Mas existe um fator essencial que é a China.

É preciso ver como a China vai reagir.

Hoje, a China é o principal sócio econômico da maioria dos países da América Latina e não tem como ir contra a nova doutrina Trump ou "donroe" [uma combinação do nome de Donald Trump com a doutrina Monroe, que defendia a primazia dos EUA no continente americano].

Porque o que a China fez, de forma inteligente, foi atuar na área econômica, comercial e não na área militar...

E sabendo muito bem que não tinha condições de competir com os Estados Unidos em termos de poder.

O teste é a Venezuela, porque a China tem investimentos na Venezuela.

O que vai acontecer com estas companhias chinesas quando Trump disser "o petróleo é nosso", "para nossas companhias"?

Vamos ver como esta relação [entre EUA e China] ficará [depois da operação militar americana na Venezuela].

Só se a China disser:

"Ok, vocês ficam com a Venezuela, mas nós pegamos Taiwan".

BBC News Brasil - O que está em jogo é um novo desenho geopolítico....

Erick Langer- Sim, uma nova estrutura econômica no mundo inteiro.

Com estas ações na Venezuela, as primeiras peças [do novo desenho geopolítico] já estão em movimento.

BBC News Brasil - O senhor citou a doutrina Monroe.

É possível fazer algum paralelo entre o que aconteceu com Maduro e o que ocorreu com o ex-presidente da Venezuela Cipriano Castro (1858-1924), que foi deposto e morreu no exílio, e em seu lugar assumiu seu vice?

Erick Langer- A diferença é que Juan Vicente Gómez [que tomou o poder de Cipriano Castro] pôde consolidar seu poder rapidamente, sob um regime que também não foi muito popular.

Mas era outro contexto, porque Venezuela é hoje, economicamente, outro país.

A Venezuela foi um país democrático durante cinquenta anos, e antes de [Cipriano] Castro e Gómez, não foi.

Era uma oligarquia no poder.

Então, toda a situação de como se governa um país e a legitimidade popular necessária agora, com essa complexidade das sociedades atuais, é bem diferente do que se viveu no século 19, quando a Venezuela era um país principalmente rural, dependia do café, do cacau, da carne....

BBC News Brasil - Agora é o petróleo.

Erick Langer - Sim e a Venezuela é o país mais urbano da América Latina.

O problema agora é que Trump quer estabelecer uma colônia econômica, e isso não é tão fácil.

Mas um eventual acordo de Trump com os chavistas [que ficaram na cúpula de Caracas] não é sustentável no longo prazo.

Os venezuelanos não vão permitir isso, e o mais provável é que acabem ocorrendo novas eleições...

BBC News Brasil - Muitas incertezas.

Erick Langer- O chavismo ainda tem o apoio de cerca de 20%, 30% da população.

Na verdade, não se sabe exatamente.

Muitos dos que nas últimas eleições votaram pelos chavistas foram obrigados a votar neles.

Sei porque tenho conhecidos na Venezuela.BBC News Brasil - Neste ano, 2026, serão realizadas eleições no Peru, na Colômbia, no Brasil, no Haiti e na Costa Rica.

Depois do que ocorreu na Venezuela, Trump poderá buscar influenciar nestes pleitos como a oposição em Honduras, por exemplo, diz ter ocorrido na eleição recente no país?

Erick Langer - Tenho certeza de que Trump vai se meter, quando puder.

Mas acho que os povos não se deixam vender.

Mas claro que temos que pensar no que aconteceu com Milei [Javier Milei, presidente da Argentina, nas eleições legislativas de outubro passado], quando os Estados Unidos anunciaram ajuda de US$ 20 bilhões.

Não entendo muito bem por que os argentinos votaram como votaram [ampliando a participação da base governista de Milei no Congresso].

Acho que o eleitorado não via alternativas porque o peronismo está muito desgastado para boa parte da população do país.

No caso do Peru, acho que a classe política não tem muita presença popular...

Mas no Peru a economia funciona bem, apesar da instabilidade política já tradicional porque os presidentes costumam durar pouco tempo no cargo, além de perderem a popularidade rapidamente.

BBC News Brasil - No Peru, existe uma espécie de divórcio entre o caminhar da economia e o que ocorre na cúpula da política, com quedas seguidas de presidentes...

Erick Langer - Exato.

Já na Colômbia, é outro cenário.

A divisão entre direita e esquerda é proporcionalmente quase igual.

Quem vai ganhar e como vai ganhar a eleição presidencial, não sei, porque depende do papel de Petro, e acho que as opiniões estão muito divididas.

BBC News Brasil - E em relação às eleições no Brasil?

Na sua opinião, pode ocorrer alguma forma de influência de Trump?

Erick Langer – Com certeza.

Não tenho a menor dúvida.

E acho que a interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais.

E claro que, se Lula continuar sendo forte e se continuar assim, muito contido com o que aconteceu na Venezuela  porque, na verdade, foi muito contido, esta calma continuará sendo uma potência contra [a direita].

O único que é grande o suficiente para parar [Trump] e dizer "chega" aos Estados Unidos é o Brasil.

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